A mão enrugada do general Humberto torce o trinco da porta do quarto, libertando para as demais peças o odor de mofo das cobertas. No corredor, há o altar montado por sua falecida esposa. A estátua de um Preto Velho está ao lado de uma de Nossa Senhora Aparecida e de um Buda. acompanhados por pés de coelho, ferraduras, folhas secas de arruda e um disco voador. No emaranhado, uma foto do general e outra dela, jovens.
O apartamento, onde o general viúvo mora sozinho, era sonho demais na época em que posaram para essas fotos. Ele, cabo, e ela, taquígrafa, filhos de pequenos agricultores, viviam com poucos recurso. Moravam em uma casa no banhado da Cidade Baixa, em Porto Alegre.
O único luxo do casal, na época, encontra-se em uma estante de livros, também no corredor. É um rádio Belmont, usado, nos anos 40, para ouvir o Repórter Esso, as notícias do final da 2ª Guerra Mundial – que Eurico não participara por ser repórter da 6ª Divisão -, os programas de auditório, os pronunciamentos que precederam a saída de Getúlio Vargas do poder e, depois, todos os do General Eurico Gaspar Dutra – ambos presidentes gaúchos.
O primeiro dia da Guerra da Coréia, em 25 de junho de 1950, foi também o último de trabalho com taquigrafia, para a grávida Clarice. Em 18 de julho, o país lamentava a derrota para o Uruguai da final da IV Copa do Mundo de Futebol, no Rio de Janeiro. No mesmo dia, o então terceiro-sargento e sua esposa iam ás lágrimas pelo nascimento da filha Vitória, cujas fotos ainda bebê decoram o metro de parede que separam um quarto de outro.
Quando a menina tinha quatro anos, passeava com sua mãe pela Rua da Praia quando centenas de pessoas saíram às ruas após o suicídio de Getúlio Vargas. Uma semana depois, o casal comemorava, no restaurante Copacabana, a promoção do marido a aspirante-a-oficial após comandar a tropa que controlou os manifestantes pró-Vargas. O diploma de reconhecimento está na parede do quarto transformado em escritório.
Pouco antes do aniversário de oito anos de Vitória, foi convidado a ser aluno da Escola Superior de Guerra. Mudaram-se para a Vila Militar, no Rio de Janeiro, ainda quando a cidade era capital do país, em 1958. Aos 34 anos, voltar à sala de aula desagradava Humberto, mas através dos estudos iria crescer na hierarquia militar.
Galgou ao posto de capitão, após a formatura no curso e foi convocado a trabalhar em Brasília, logo após sua inauguração, em 21 de abril de 1960. Comandou grupos de soldados encarregados de concluir as obras. Seus colegas – majores e diretores de estatais – voltaram, em sua maioria, aos seus postos, mas mantiveram contato. A prova disso está nas paredes da sala. são as fotos de seus ex-colegas ao lado das obras da capital
Articularam-se para eleger Jânio Quadros presidente da República. Clarice cuidava da filha e do apartamento funcional que moravam visitados pelos ex-colegas de Humberto, que conversavam sobre a possibilidade de criar uma ditadura no país. Nessa época, ganharam de um recém-empossado general uma miniatura em prata de uma biga romana, que agora decora o balcão da sala de jantar.
Jânio Quadros entrou e saiu do poder. O parlamentarismo veio e foi. Goulart, também e um então major Henrique, subiu a rampa do Palácio do Planalto, com centenas de militares – entre eles, seus ex-colegas de Escola Superior de Guerra, agora chamados Sorbonistas, que desejavam uma ditadura científica e branda, ao contrário dos militares de linha-dura, que aguardavam a oportunidade para ingressar no poder e usar a força.
A partir daí, sua trajetória ocupa uma parede inteira da sala de estar em fotos emolduradas em dourado. Também nesse período áureo adquiriu o apartamento no centro então nobre Centro de Porto Alegre. Agora, transformado em latrina, devido à sujeira depositada por dezenas de anos naquelas calçadas já pisadas por intelectuais, escritores, políticos, empresários e altos funcionários públicos, substituídos pelas passadas de estudantes, camelôs, mendigos e visitantes do interior do Estado, que esperam encontrar um centro da capital do Rio Grande do Sul ainda com um pouco do glamour do passado.
A revolução, para os militares, e golpe, para os militantes de esquerda durou 20 anos, com lutas internas pelo poder e viagens internacionais para o general Henrique, que, entre lembranças, esmera-se em desmontar uma boneca russa do período czarista prussiano, confeccionada dezenas de anos antes de os comunistas fazerem a revolução de 1917.
Os amantes dessa revolução russa sempre foram alvo dos militares, que não queriam o comunismo implantado no Brasil. Procurando-os nos meios de comunicação, o major Humberto alçou a general e participou de dezenas de reuniões com presidentes militares – uma delas, representada em fotografia na sala de estar.