Mais um Quintana e seus quintanares

 

 

E UM GAUDÉRIO



 Escrito por Doro às 17h24
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O cárcere do general - parte 1 - Leandro Dóro

 

            A mão enrugada do general Humberto torce o trinco da porta do quarto, libertando para as demais peças o odor de mofo das cobertas. No corredor, há o altar montado por sua falecida esposa. A estátua de um Preto Velho está ao lado de uma de Nossa Senhora Aparecida e de um Buda. acompanhados por pés de coelho, ferraduras, folhas secas de arruda e um disco voador. No emaranhado, uma foto do general e outra dela, jovens.

            O apartamento, onde o general viúvo mora sozinho, era sonho demais na época em que posaram para essas fotos. Ele, cabo, e ela, taquígrafa, filhos de pequenos agricultores, viviam com poucos recurso. Moravam em uma casa no banhado da Cidade Baixa, em Porto Alegre.

            O único luxo do casal, na época, encontra-se em uma estante de livros, também no corredor. É um rádio Belmont, usado, nos anos 40, para ouvir o Repórter Esso, as notícias do final da 2ª Guerra Mundial – que Eurico não participara por ser repórter da 6ª Divisão -, os programas de auditório, os pronunciamentos que precederam a saída de Getúlio Vargas do poder e, depois, todos os do General Eurico Gaspar Dutra – ambos presidentes gaúchos.

            O primeiro dia da Guerra da Coréia, em 25 de junho de 1950, foi também o último de trabalho com taquigrafia, para a grávida Clarice. Em 18 de julho, o país lamentava a derrota para o Uruguai da final da IV Copa do Mundo de Futebol, no Rio de Janeiro. No mesmo dia, o então terceiro-sargento e sua esposa iam ás lágrimas pelo nascimento da filha Vitória, cujas fotos ainda bebê decoram o metro de parede que separam um quarto de outro.

Quando a menina tinha quatro anos, passeava com sua mãe pela Rua da Praia quando centenas de pessoas saíram às ruas após o suicídio de Getúlio Vargas. Uma semana depois, o casal comemorava, no restaurante Copacabana, a promoção do marido a aspirante-a-oficial após comandar a tropa que controlou os manifestantes pró-Vargas. O diploma de reconhecimento está na parede do quarto transformado em escritório.

            Pouco antes do aniversário de oito anos de Vitória, foi convidado a ser aluno da Escola Superior de Guerra. Mudaram-se para a Vila Militar, no Rio de Janeiro, ainda quando a cidade era capital do país, em 1958. Aos 34 anos, voltar à sala de aula desagradava Humberto, mas através dos estudos iria crescer na hierarquia militar.

            Galgou ao posto de capitão, após a formatura no curso e foi convocado a trabalhar em Brasília, logo após sua inauguração, em 21 de abril de 1960. Comandou grupos de soldados encarregados de concluir as obras. Seus colegas – majores e diretores de estatais – voltaram, em sua maioria, aos seus postos, mas mantiveram contato. A prova disso está nas paredes da sala. são as fotos de seus ex-colegas ao lado das obras da capital

            Articularam-se para eleger Jânio Quadros presidente da República. Clarice cuidava da filha e do apartamento funcional que moravam  visitados pelos ex-colegas de Humberto, que conversavam sobre a possibilidade de criar uma ditadura no país. Nessa época, ganharam de um recém-empossado general uma miniatura em prata de uma biga romana, que agora decora o balcão da sala de jantar.

            Jânio Quadros entrou e saiu do poder. O parlamentarismo veio e foi. Goulart, também e um então major Henrique, subiu a rampa do Palácio do Planalto, com centenas de militares – entre eles, seus ex-colegas de Escola Superior de Guerra, agora chamados Sorbonistas, que desejavam uma ditadura científica e branda, ao contrário dos militares de linha-dura, que aguardavam a oportunidade para ingressar no poder e usar a força.

            A partir daí, sua trajetória ocupa uma parede inteira da sala de estar em fotos emolduradas em dourado. Também nesse período áureo adquiriu o apartamento no centro então nobre Centro de Porto Alegre. Agora, transformado em latrina, devido à sujeira depositada por dezenas de anos naquelas calçadas já pisadas por intelectuais, escritores, políticos, empresários e altos funcionários públicos, substituídos pelas passadas de estudantes, camelôs, mendigos e visitantes do interior do Estado, que esperam encontrar um centro da capital do Rio Grande do Sul ainda com um pouco do glamour do passado.

            A revolução, para os militares, e golpe, para os militantes de esquerda durou 20 anos, com lutas internas pelo poder e viagens internacionais para o general Henrique, que, entre lembranças, esmera-se em desmontar uma boneca russa do período czarista prussiano, confeccionada dezenas de anos antes de os comunistas fazerem a revolução de 1917.

            Os amantes dessa revolução russa sempre foram alvo dos militares, que não queriam o comunismo implantado no Brasil. Procurando-os nos meios de comunicação, o major Humberto alçou a general e participou de dezenas de reuniões com presidentes militares – uma delas, representada em fotografia na sala de estar.



 Escrito por Doro às 12h01
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O cárcere do general - parte 2 - Leandro Dóro

Já Clarice, ocupava-se em sua empreitada espiritual. Decorou a casa com santos e imagens religiosas. Ela queria conhecer o que rege a vida, ao lado da filha Vitória.

A menina estudou em colégios públicos de Porto Alegre e do Rio de Janeiro e, quando adolescente, freqüentou os templos ecumênicos, da nova capital federal. Viu terreiros de umbanda, budistas, xintoístas e supostas aparições de discos voadores. Cresceu saudável e feliz, para surpresa do pai, que acreditava que a menina ia se tornar uma hippie ou integrante de alguma religião obscura, mas afirmou-se católica e cursou Letras.

Casou-se com um jovem advogado da Arena, que a fez voltar para a capital gaúcha, distante da rebeldia dos que contestavam a Revolução Gloriosa. Moravam em um casarão na Zona Sul, bem diferente da paupérrima que Humberto e Clarice tinha na juventude.

Agora, a filha orienta o motorista que também deve impedir o aposentado de caminhar pelas ruas da cidade. O general busca burlar essa ordem. Vai a portaria do edifício. Espera não encontrar o motorista ou o porteiro, que montam guarda nesse cárcere.

 Três batidas e dois giros na chave e Iolanda adentra o apartamento, a faxineira que às vezes também é enfermeira, babá, confessora e também carcereiro do general. Já chorou pelas ofensas recebidas daquele homem altivo e enrugando. Agora trata essas manifestações como birra de criança malcriada.

O general percebe isso e irrita-se ainda mais. Há duas semanas, querendo demonstrar a própria força física, caminhou pelas ruas do centro. Teve sua carteira furtada por um menino cujo tônus muscular tinha, no mínimo, 65 anos a menos que o general.

Desde então o motorista, a faxineira e  porteiro redobraram os cuidados.

- Não fiz a revolução para ser humilhado por vocês – dizia.

É alegre principalmente quando toma café em hotéis onde os militares da reserva e ex-interventores e governadores do período militar se encontram para confabular. Tratam-se pelos títulos que conquistaram durante a vida e discutem estratégia política.

Iolanda arruma o quarto, enquanto o general admira um quadro que retrata o calçadão de Copacabana. A cada trimestre ele e a enfermeira Amélia, que o visita duas vezes por semana, viajam até lá, para que o general reencontre seus amigos, que passam o dia dialogando em cafés cariocas.

Também em Copacabana o general tem um apartamento, adquirido quando Figueiredo – o último presidente militar -, tomou posse em 1979. Nessa época, o general Humberto deixou de procurar comunistas para fiscalizar notícias e possíveis imposturas contra a ditadura. Passava os dias visitando donos de jornais e emissoras de rádio e TV para orientá-los sobre quais idéias os militares desejavam que fossem divulgadas.

A pressão política, na época, já havia sido substituída pela econômica. Se o que os militares desejavam divulgar não fosse feito, o órgão de comunicação perdia anúncios estatais – tática muito mais eficiente que a perseguição política.

Na mesma época nasceram suas netas. A primeira veio em 1980, ano das Olimpíadas na União Soviética. A segunda, em 1982, em plena Guerra das Malvinas, quando Inglaterra e Argentina disputavam a posse de um naco das ilhas com mesmo nome. A neta mais nova, ajuda a cuidar do cárcere do general e as vezes também viaja ao Rio e o acompanha aos reencontros com os idosos líderes militares.

Humberto nota a chave na porta do apartamento.

Volta ao quarto. Iolanda arruma o guarda roupas. Procura no altar da falecida esposa algum símbolo que remeta a guerra. Encontra uma bola plástica vermelha, que representando o planeta marte – cujo nome homenageia o deus da guerra.Segura em uma das mãos a bola e segue até a porta.

Sai e a tranca, deixando Iolanda presa, ali, naquele museu de memórias. Desce o elevador. Na recepção, não há nem porteiro, nem motorista e nem clientes. Apressasse para chegar a rua. O vento frio o faz perceber que está de pijama e pantufas. Pensa em voltar ao apartamento para se vestir, mas se o fizer Iolanda não o deixará sair.

Pondera, cabisbaixo. Pressiona o globo, como se segurasse a mão da falecida esposa e continua o passeio, mirando com altivez os que o observam, tendo a certeza que nenhum deles tem tantas lembranças para se vestir.



 Escrito por Doro às 11h59
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 Escrito por Doro às 20h41
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