O exército de Cavalaria - Isaac Babel

Incensado pela crítica, O Exército de Cavalaria de Isaac Bábel acaba de ser relançado no Brasil a partir de tradução feita diretamente do russo por Aurora Fornoni Bernardini e Homero Freitas de Andrade. Possuo a edição de 1988, traduzida por Roniwater Jatobá sob o título de A Cavalaria Vermelha. Conheci a obra a partir de livro de Rubem Fonseca onde elogiava o autor judeu-russo quase desconhecido no Brasil. Li, de um fôlego, sua narrativa. Talvez, pela tradução, não me impressionou. De qualquer forma, resolvi rever os textos de Bábel que, em O Exército, narra sua violenta experiência no exército vermelho pré-stalinista. É considerado por Máximo Górki - esse sim, um contista impressionante - como "o melhor que a Rússia tem a oferecer". Provavelmente, pela origem judaica, não percebi um sofrimento religioso dos personagens, comum na literatura russa, e sim uma visão pragmática das intempéries ocorridas na vida do narrador.

Nesse link há um conto de Bábel: http://www.lumiarte.com/luardeoutono/contosrussos/direitosautor1.html

Avaliem-no.

Sábado, às 20 horas, palestro em Passo Fundo sobre a Revolta dos Motoqueiros, durante a Feira do Livro.

Antes, às 15 horas, ministro Oficina de Criação Literária, onde levarei, também, exemplar de Bábel para análiser crítica.



 Escrito por Doro às 10h32
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Solanáceo - por Leandro Malósi Dóro

As batatas o perseguiam. Cozinhavam-se em panelas promíscuas, que aceitavam aquecer também nabos e pedaços de acém – carne de panela que por mais de uma hora, rebolava-se na água fervente.

Seu habitat era um porão, com piso de terra, que subia por parte das paredes de tijolos a vista. O fogareiro que servia de cama para as panelas de lupanares ficava ao lado do colchão que dormia, já umedecido pelo contato com o solo. A luz, que o alumiava a noite, provinha de um abajur sem cúpula, que nu apresentava a lâmpada arredondada, igual ao corpo do habitante daquela caverna urbana. Pendulava sobre o baú onde estavam suas escassas vestes em forma de saco.

Solanáceo era seu nome de batismo. Perdera braços e pernas em um choque elétrico quando trabalhava em uma torre de linha viva, que transmitia energia elétrica para a cidade. Seus familiares procuraram o sindicato que, apoiados pela assessoria jurídica, obteve indenização judicial e pensão para ele. Porém, os parentes utilizaram-se da indenização e roubaram seus proventos mensais, sob o pretexto de cuidá-lo em casa.

Ao saber disso, gritava, no quarto, pedindo para morar sozinho. Seu único cunhado decidiu reservar o porão da casa para ele, enquanto a irmã aceitou cuidá-lo. Dava a ele, quase todos os dias, batatas, que se assemelhavam ao atual formato de seu corpo.

- Temos de levá-lo de volta para casa, senão morre – dizia a irmã. Todavia seu cunhado afirmava que era melhor ele morar sozinho. Solanáceo, com sua ex-mulher, adotou uma recém-nascida, pouco antes do acidente. A mulher descobriu, no hospital, enquanto cuidava do marido, que sofria de câncer no fígado. Resistiu poucos meses. Significa que, se o aleijado morrer, a pensão da menina ficará para o cunhado e a irmã dele.

Sua irmã cuidava de Solanáceo. Banhava-o com esponja úmida. Dava-lhe pão cacetinho, pela manhã, batatas com carne de panela, ao meio-dia, e nabos cozidos, á noite. Limpava seus excrementos. Deixava o saco de batatas, os nabos e o pão ao seu lado. Antes, rezava ao seu lado, apesar da recusa dele em participar daquele ritual.

Ele possuía rádio, que sua irmã deixava, sussurrante, em difusora evangélica. Não tinha televisor ou livros e revistas para leitura – detestava a programação radiofônica, recusara-se a consumir imagens e sentia-se impedido de virar as páginas.

Observava as batatas mudando de cor conforme a luz ao dia. Eram ocres, ao amanhecer, esbranquiçadas, na metade da manhã — quando o sol atingia o porão diretamente —, alaranjadas, ao meio-dia, marrons à tarde e novamente ocres, sob a luz da lâmpada, à noite.

Era a essência de seu universo redondo. As batatas eram ovais, a lâmpada, esférica, seu corpo, oblongo, e as paredes, a sua volta, devido a terra, arredondavam-se.

Os ratos e baratas pouco freqüentavam aquele porão. Morriam devido aos inseticidas espalhados nos cantos pela irmã. Sonhava que estava no banheiro de casa, banhando-se, ou na cozinha, tomando café. Imaginava-se caminhando e, por várias vezes, sentia coceira nos membros que não mais existiam. Gritava e era atendido pela mesma irmã, que tinha a incumbência de cuidar da filha adotiva de Solanáceo.

Acordou, certa manhã, com uma minhoca em seu peito. Observou-a, calado. Já havia visto outros seres sobre seu corpo. Agitava-se para livrar-se deles. Porém, as vezes, observava-os em seu trajeto. Pensou: também posso locomover-me assim.

Com os músculos das costas, começou uma pequena caminhada, rumo a saída do porão. Por um tempo que não conseguiu calcular, moveu suas costas sobre a terra, até a escada de três degraus que o separava da porta aberta. Pôs a nuca no degrau de terra e forçou o pescoço para atingir o próximo. Conseguiu. No terceiro degrau, seu corpo estava por extenso na escada. Sua musculatura doía, sob o frio do piso.

Via a luz sobre as folhas das árvores, no pátio de casa. Seu corpo, suado e polvilhado de terra, mantinha-se hirto ou ereto, como o leitor preferir. Em um último esforço, sentiu uma fisgada às costas. Seu corpo rolou pelo lado da escada, batendo contra o saco de batatas – tubérculo que seu cunhado, pastor de igreja evangélica, sabia que Solanáceo detestava tanto quanto a religião que apregoavam.

 



 Escrito por Doro às 12h27
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Dedos que coçam - por Leandro Malósi Dóro

         O quarteirão pedia para que elas coçassem suas calçadas todas as manhãs. Caminhavam, as duas irmãs idosas, uma segurando a outra pelo braço.

Tinham narizes de gancho e pele enrugada que recobriam as feições da juventude. Arrastavam as chinelas, controlando a micose contraída pela calçada devido à umidade acelerada pela sombra dos edifícios.

Quase todos os prédios gostavam delas. A padaria as convidava para entrar todas as manhãs e, ali, torradas e cafés se ofereciam a ambas. A fruteira as queria para que retirassem dali couves e alfaces, porém quem as tinha eram rapaduras e doces de leite.

Coçavam, com suas pantufas, as pedras do quarteirão e passavam diante do armarinho – prédio que as detestava, pois as irmãs sempre se cobriam com vestidos velhos, mal-remendados, dando ares de maltrapilhas.

Deixavam o quarteirão apenas quando a revistaria, há uma quadra, sussurrava avisando que exemplares de jornais as desejavam, assim como as revistas semanais de política e um balcão, que guarnecia um balconista, convidavam-nas a conversar.

A casa, que as recebia desde que nasceram, já demonstrava ser idosa. O marrom do cimento velho, quase um barro, aparecia sobre a tinta amarela que, aos poucos, mudava-se para outros países. A residência as aconchegava.

Era daquelas do início do século XX, de janelas vermelhas e com telhado em forma de V invertido escondido, na parte da frente, por um frontão, que dava a aparência da edificação ser retangular – antevendo os futuros prédios do restante do século.

Elas, as duas, eram convidadas a aumentar o número de pessoas que coçam o quarteirão, conversando com pessoas em pontos onde a micose era mais provocativa.

Uma manhã, a irmã mais velha acordou adoentada. A mais nova pediu a casa para sair, ir ao hospital. Porém o quarteirão, enciumado, não deixou que se retirassem dali.

A irmã mais nova morreu pouco mais de vinte minutos depois, de causas naturais. O quarteirão, então, permitiu que fossem ao cemitério velar por aquela eficiente coçadora.



 Escrito por Doro às 10h34
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