Há um ponto que une o Gazy Andraus desenhista com o Gazy Andraus pesquisador: a abordagem filosófica e mental dada aos quadrinhos. É papo cabeça, como se diz na gíria. Mas muito pertinente. Tão pertinente que virou tese na USP (Universidade de São Paulo), defendida nesta sexta-feira.
O agora doutor Gazy Andraus mostrou que o ensino acadêmico principalmente o universitário, coloca as imagens num segundo plano, toma como base um modelo estritamente racional.
Isso traria mudanças no comportamento cerebral. Desenvolveria mais o lado esquerdo do cérebro (mais lógico e racional) e menos o hemisfério direito (voltado à criação).
Segundo o pesquisador, os quadrinhos seriam o meio ideal para trazer um equilíbrio maior à atividade cerebral no meio científico, como sintetiza a ilustração ao lado.
“É por isso que as histórias em quadrinhos são o carro-chefe da minha tese”, diz Gazy. “Se eu defendo que o ensino caduco tem que ser substituído por outro que abranja todas as funções das lateralidades cerebrais, os quadrinhos são, no mínimo, os ideais. Em cada história em quadrinhos há em geral uma junção entre os desenhos (ativando o hemisfério direito) e os textos contidos nos balões e nos recordatórios (que atiam o esquerdo). Há uma riqueza nessa fusão.”
Gazy transita bem nos dois campos. Ou nos dois hemisférios. Desenha desde a infância. Enquanto a maioria das crianças rabiscava pessoas ou objetos conhecidos, ele fazia dinossauros. Com os anos, partiu para os fanzines. É onde desenvolveu o que chama de HQ “fantástico-filosófica”, construída pelo “impulso de inconformismo filosófico e existencial da vida”, segundo ele.
“Na verdade, não sei lhe dizer se que me levou à academia foi só a dificuldade de se publicar histórias em quadrinhos no Brasil. Creio que meu destino responde a uma questão interior mais forte: ao elaborar meus quadrinhos, diretamente a nanquim e sem esboço prévio, meu cérebro age muito pelo canal direito. Como que para se equilibrar, decerto minha mente pede que eu tente explicar racionalmente esses fluxos e influxos. É como se minha mente quisesse restabelecer o equilíbrio.”
Gazy atualmente mora em São Vicente, no litoral de São Paulo, cidade propícia para quem procura equilíbrio. Daqui para frente, seus planos profissionais devem alimentar seus dois lados do cérebro. Faz planos de galgar uma carreira universitária, mas sem deixar de lado a atividade artística.
(Paulo Ramos)