As pegadas de Rafael iam do banheiro ao quarto, onde o rádio-gravador executava a fita K7 de Made in Brazil interpretando um blues: “Eu acordei, eu acordei, eu acordei legal essa manhã, manhã cinzenta e muito quente”.
Pôs uma camiseta branca, que umedeceu ao contato com os cabelos castanhos longos, ainda ensopados. Colocou uma camisa xadrez, em azul e cinza. Não a abotoou. Calça jeans larga e botina de lona de caminhão completaram seu vestuário.
- Tchau, mãe – disse, ao fechar a porta de casa. Deixou o rádio-gravador ligado. Caminhou velozmente, fazendo flanar a camisa xadrez.
Atravessou ruas escuras, até ver as luzes do bar Barril 2000, onde seus amigos tocavam violão e contavam piadas. Cumprimentou-os tocando Roadhouse Blues, dos The Doors, na gaita de boca.
Há poucos dias, um radialista falou dos “vândalos do Boqueirão”, que queimaram uma cruz de gasolina na Avenida Brasil. Um Del Rey desgovernou e bateu nas árvores do canteiro central. Sol, que provocou o acidente, estava ali.
O mesmo radialista informou que um desses rapazes caminhou nu pelas ruas da cidade. Era Paulinho, que, bêbado, comemorava seu aniversário. Também sumiram placas de trânsito naquela região. Foi Rodrigo, que as colocava em seu quarto junto com quadros que pintava pássaros voando sobre despenhadeiros floridos.
O relógio do bar marcava meia-noite. Paulinho anunciou ter a erva. Sol disse possuir uma garrafa de cachaça misturada com Coca-cola. Todos saíram do bar, deixando um cantor que ia começar a sua apresentação de MPB. Dirigiram-se a uma ruela. Pularam um muro e deram no pátio de uma casa, onde Rodrigo começou a fechar um cigarro. Um dos vizinhos abriu a porta dos fundos e gritou, fazendo todos fugirem até o próximo muro.
De volta a Avenida Brasil, Paulinho decidiu que o grupo deveria fumar no caminho para o New Kids, o bar onde tocavam Eros e Banda – blues e rock anos 80 -, Patrulha Ativa – rock progressivo - e Zero a Esquerda – rock gaúcho anos 80.
O New Kids era apenas uma garagem sob uma boate famosa. Mais de duzentas pessoas se amontoavam naquele espaço enfumaçado. Eros berrava:
“Well be-bop-a-lula she's my baby,
Be-bop-a-lula I don't mean maybe.
Be-bop-a-lula she's my baby
Be-bop-a-lula I don't mean maybe
Be-bop-a-lula she's my baby love,
My baby love, my baby love.”
Dois magrelas, com calças e bolsas hippies, acotovelaram-se entre os roqueiros e chegaram ao palco. A música parou. Um deles tomou o microfone e disse:
- Companheiros, a situação do país é grave. O dinheiro das poupanças foi roubado e a maioria de nós e de nossos pais ficaram na miséria. Collor é corrupto. Amanhã à tarde vamos às ruas de cara-pintada. Vamos derrubar esse ladrão e sua corja de covardes. Todos a praça em frente a Catedral para derrubar o presidente
Aplausos e gritos. Os mortos-vivos podiam acordar.