Um vinho tinto é perfeito para bem acolher em um jantar com amigos, pensa Ricardo, ao acariciar uma garrafa empoeirada de Cabernet Sauvignon. O supermercado está abarrotado de clientes e o setor de vinhos também têm seus freqüentadores de sábado à tarde que passam à frente ou ocupam o espaço de clientes mais indecisos.
— Com licença. Poderia me dar espaço um instante? – afirma o cliente que lança o braço, igual a língua de sapo, diante do nariz de Ricardo para pinçar uma garrafa de assemblage. — O senhor conhece esse assemblage? É uma mistura de uvas das variedades Tanat e Merlot. É um vinho relativamente barato e de ótima qualidade.
Ricardo concorda, colocando a mão sobre o queixo para agradecer o título de senhor. Pensa: quem sabe um dia ganhe outros títulos, como visconde, conde, barão ou outra classificação que lhe renda terras ou dinheiro junto a uma corte inexistente.
Ouve a sugestão fingindo interesse. Porém o movimento a sua volta o impede de raciocinar. Despede-se do entusiasta de vinhos pensando desejar, sim, um vinho branco da variedade Chardonnay. Porém é outono e o frio desaconselha o consumo de gelados.
Sai do supermercado e recebe tapas nas costas. É Alberto, seu ex-colega de universidade, que ao saber da dúvida do amigo lhe recomenda um Moscato Bianco. Mas concorda que vinho tinto é melhor para a época. Um Pinot Noir seria perfeito para oferecer em um jantar para amigos acompanhado de tortei de moranga com muito queijo de colônia em fatias e queijo ralado.
Despedem-se e Ricardo se lembra de quando consumiu um belíssimo vinho da variedade Niágara, adquirido de uma família italiana, nos arredores da cidade. Era vinho de mesa, mas delicioso. Porém está sem automóvel para buscá-lo, portanto não poderá oferecê-lo a convidados que na semana anterior lhe serviram um tinto da variedade Ancelota, acompanhado de macarrão coberto por belos nacos de frango desfiado, milho, pimentão, tomate e molho branco em uma profusão de cores invejável.
Parou mais uma vez, na calçada. Deu três beijos em Eduarda, que sempre lhe cumprimentava com um sorriso repleto de belos dentes. Ela perguntou quando sairiam para jantar. Sugeriu tomar cerveja, mas Ricardo disse preferir vinho, devido a chegada do frio. Eduarda disse aceitar e se lembrou que no último jantar Ricardo ofereceu um vinho ótimo.
— Era um Trebiano — recordou-se ele, piscando os olhos com orgulho. Ela ia ao supermercado e Ricardo decidiu acompanhá-la. Degustaram diferentes marcas a entrada das gôndolas de vinhos e espumantes. Após alguns goles de um Cabernet Franc e uma Tanat, sentiu-se alegre. Com olhar turvo, percebeu uma garrafa da variedade chilena Carmenére, que, confessou a si, quase deseconhecer. Porém ele e seus amigos, aquela noite, irão se aventurar a degustá-la.