Arnaldo conhecia Tobias desde os anos de colégio. Lembrava daquele nariz sardento entupido pelo ranho duro – um muco nasal persistente, que o perseguiu na infância e nenhuma aula de ciências conseguiu demovê-lo a limpar antes que despontasse sobre aquela boca rosada de comedor de geladinho, o saquinho de suco congelado.
Passadas duas décadas, reviu Tobias mais velho. O rosto, antes arredondado, afilou. Os olhos mantinham-se azuis e os cabelos ruivos.Antes era cortado em forma de cuia, mas cresceu a ponto de alcançar o final das omoplatas.
Reconheceu-o sob a luz do poste de luz de mercúrio de uma rua central a duas quadras da escola onde estudaram. Parou o automóvel e, ao conversarem, percebeu novas cores em Tobias: vermelho, rosa e negro, da maquiagem carregada.
Abriu a porta e o Palio de Arnaldo, cheirando a lavanda, impregnou-se de um odor enjoativo de rosas. Tobias cruzou as pernas depiladas. Arnaldo lembrou-se do recreio em que Tobias saiu do banheiro da escola gritando e chorando pátio afora. Os meninos que se encontravam com Tobias ali foram suspensos três dias. Ao voltarem a escola, os rapazes, mais velhos que Tobias, continuaram a freqüentar o mictório acompanhados do Ruivinho, como era chamado.
Em um desses intervalos escolares, todas as crianças do colégio gritavam pelos corredores mais do que o habitual. Arnaldo foi procurar a origem da alegria. Dirigiu-se a uma das escadas. Olhou para baixo e viu os cabelos ruivos de Tobias misturarem-se aos negros bugre de um colega afeminado.
Recordou-se disso e ereto e ofegante, pediu para Tobias erguer o vestido. Viu um membro minúsculo, querendo parecer em prontidão. Engatou a primeira marcha e dirigiu-se ao estacionamento de um motel, que na infância de ambos era um drive-in. Ali, as crianças subiam os muros para tentar ver os casais se amontoarem um sobre os outros, embaçando os vidros de fuscas e diplomatas, enquanto um obscuro filme era transmitido em um muruo, ao ar livre.
Em um quarto de tijolo à vista, pediu para Tobias ficar nu. Obedeceu, revelando seios duros de silicone injetado e ancas formadas por hormônios femininos. Se abstraísse esses adendos, Tobias continuaria a ter um corpo reto e esquálido, como na infância.
Entre os seios, notava espinhas e manchas vermelhas, provavelmente da depilação. Nas pernas, havia roxos e arranhões. Identificou também varizes, difíceis de se ver sob a luz amarela daquele quarto mínimo. Tobias ajoelhou-se. Arnaldo sentiu sua língua trabalhar e puxou seus cabelos até ver lágrimas nos olhos azuis do ex-colega.
Os lábios rosados de Tobias pararam. Perguntou se já haviam saído antes. Arnaldo negou apenas com um “nunca” retumbante. A língua de Tobias voltou ao trabalho.