Geou ao amanhecer. Resquícios brancos se aninhavam ao lado das árvores e arbustos encarquilhados e nus da praça em frente a escola. Ricardo suava sob a jaqueta de lona e calça jeans. Correu até beira do lago, como se fosse se atirar. As galochas arranhavam seus calcanhares. Permitiam a entrada do frio, que pressionava seus dedos. Imaginou-se naquela água gelada, com o corpo enrijecido, e depois saindo com as roupas molhadas, sentindo o vento lhe açoitar de cinto. Aguardaria uma pneumonia sob as cobertas, sendo acarinhado pela mãe por chás, gibis e músicas no rádio, sem precisar ir para as aulas de matemática.
Para ele, a regra de três ainda era difícil de ser decorada.
Viu um gato preto deitado ao lado da estátua onde se lia a Carta Testamento de Getúlio Vargas. Estavam mortos, a estátua e o gato. Imaginou ser sorte encontrar um felino negro morto. Despregou um galho de arbusto e cutucou o animal petrificado. Ao tentar manobrá-lo com a vara, Ricardo se notou com as mãos endurecidas, avermelhadas e ressequidas, igual ao pêlo do gato, que jazia a sua frente.
Jogou o galho por sobre a amurada do campo de futebol da praça. Arrumou a mochila, que já pesava às costas, e rumou a escola. Imaginava beber achocolatado quente com bolacha Maria.