As barras das calças de Jean recolhem as gotas de orvalho recém aspergidas pela madrugada. Ele e Luiza seguem em longas passadas pelo gramado ao lado da rodovia. Olham para os pés, evitando tropeços e escorregões naquele solo úmido. As mochilas às costas dos dois parecem reduzir de peso devido à jaqueta de couro forrada com lã e aos moletons — roupas iguais, como se marcando a aliança do casal de corpos esguios e idade semelhante.
O ar expirado forma uma coluna de fumaça. Locomotivas humanas.
É o primeiro dia de estrada. Pernoitaram em uma pousada em Três Coroas, próxima a Porto Alegre. Saíram da capital gaúcha, finalmente, depois de um ano sonhando em sair da rotina: trabalho, aula, bares da Cidade Baixa e visitas aos museus, shoppings e briques.
Deram-se um mês de férias e o dinheiro economizado de noites sem festas, jantares ou roupas novas. Um mapa os orienta: o formato de coração do Rio Grande do Sul cortado por um risco vermelho que começa ao lado do estuário Guaíba e passa por Caxias do Sul, Bento Gonçalves, Vacaria, Passo Fundo, desce Ijuí, Santa Rosa, Santa Maria, Santana do Livramento, Rio Grande, Pelotas e se conclui em Canela.
As mãos geladas de Jean, sob as luvas de couro, sinalizam para os veículos da rodovia. Carona. Os automóveis, ônibus e caminhões passam zunindo os ouvidos. Porém o sorriso se mantém em seus rostos. A rodoviária está a poucas quadras e caronas são difíceis nesses dias de desconfianças entre os seres.
Sem olhar para Luiza, sabe que ela está feliz. Essa sintonia resiste quase dois anos, desde que se conheceram em uma madrugada em uma boate de Black Music — moda já substituída por outras diversas, a cada semestre.
A paisagem se transforma em listras verdes e azuis na janela do ônibus. No peito de Jean, Luiza descansa sua cabeça. Os corpos se aquecem enquanto a serra e suas curvas passam diante de olhos ávidos.
O aparelho de MP3 executa Ave Maria na voz de Andrea Bocelli. Fixa o olhar em casas de pedra e madeira, em pequenos sítios de colonos italianos, cercados por parreirais e cercas brancas, como em um desenho animado.
Os dedos mornos de Luiza tocam os lábios de Jean. Ele a observa com olhar lânguido de mulher que sente amor. Retribui com o cenho reflexivo. O sonho dessa viagem era dele. Ela aceitou acompanha-lo. E se fosse outra mulher?