Os olhares se entrecruzaram no burburinho da redação. Jornalistas avisam, aos diagramadores, quando as matérias estarão prontas. Publicitários pedem páginas ímpares para o editor-chefe. Pilhas de papéis prestes a cair abarrotam mesas e gabinetes dos computadores, enfileirados contra a parede. Pelo chão, espalham-se manchas de café e nas mãos copos plásticos e carteiras de cigarros — esses últimos podem ser consumidos apenas na cozinha.
Arnaldo joga suas anotações sobre o teclado e digita escandalosamente, como se estivesse com uma máquina de escrever dura. Sua sob os cabelos escuros desgrenhados e a barba rala. A camiseta branca, calças jeans e botina têm respingos de café. Nota, no outro canto, Mariano, em pé, conversando com Cássio.
“Prefeito inaugura centro de saúde na vila Luiza”, escreve Arnaldo. “O prefeito municipal de (...), Edvaldo Lângaro, inaugura, hoje, o Centro de Atenção Integral a Saúde (CAIS) da vila Luiza.” Digita vinte linhas em Times New Roman corpo dez e a deposita no computador do editor, acompanhada de uma foto do prédio, cercado por asfalto novo e casas populares de alvenaria.
Mariano senta-se, dois computadores adiante, para digitar. Usa terno, gravata e cabelos castanhos com gel, enquanto os demais repórteres perfilam-se com amarrotadas camisetas e jeans. Ás 20 horas, a capa é finalizada.
A notícia escrita por Arnaldo está no rodapé.
Doze repórteres da empresa encerram o expediente. Outros dois, incluindo o chefe de redação, ficarão até às 23 horas, alertas para algum acidente de trânsito, assassinato ou manchete nacional.
Cássio e Arnaldo vão a pé ao shopping, a duas quadras da empresa. Na praça de alimentação, bebem chopes de uva. Cássio lhe pergunta:
— Por que você escreve em ordem indireta ao invés de ordem direta?
— Em ordem direta, escrevo. — diverte-se Arnaldo. O amigo responde sorrindo, mas com um olhar sério.
— Quem comentou sobre isso? — pergunta Arnaldo, ainda altaneiro.
— Eu mesmo li. Mariano também viu e não gostou.
Desconfiava dos olhares de Mariano enquanto conversa com Cássio. Há dias o engravatado não produzia notícias que se tornavam capa. Arnaldo desconfiava que o editor Martins o protegesse. Mariano escrevia frases de um parágrafo, difíceis de serem digeridas por um leitor que deseja informar-se em até quinze minutos.
— Mariano tem comentado o que mais, sobre mim?
— Só isso. Às vezes reclama para o editor quando você demorara em alguma cobertura na rua, só que isso o Martins nem quer ouvir.
Martins já havia comentado com Arnaldo sobre a demora em algumas pautas, mesmo sabendo das distâncias e dos atrasos das autoridades em coletivas. Arnaldo toma o último gole do chope e despede-se do amigo. Evita comentar sobre a desconfiança de que Mariano o detesta. Desconhece quão amigo é de Cássio.