Você lembra da imagem mais antiga que tem em sua memória? É no berço? Em um passeio? Banhando-se? E o primerio sorriso? Recorda das brincadeiras que ouvia dos adultos? O que pensa deles? Será que você é parecido com algum parente que conheceu na infância? Será que alguma criança está o vendo, agora, e quer ser parecido com você? Será que você é justo? Será que preza pela amizade? Será que descobriu como se mantém aquilo que chamamos amor? Ou será que quer apenas ler um feliz natal? Por Leandro Dóro
Filmes infantis tornam o bolso dos pais e familiares um eterno saco sem fundo. Nada mais sugestivo que o filme Madagascar 2. Poderia ser Manda Gastar 2. Uma bela trupe: um leãozinho, uma girafinha, uma zebrinha, uma hipopotamazinha, pinguins, lemures, etc. Seres fofinhos e que retratam alguns tipos sociais comuns: a girafa, o tímido; a zebra, as pessoas que sabem ser comuns, mas não aceitam como são; a hipopotama, gordinhas; os pinguins, as classes trabalhadores; os lêmures, os que têm mania de grandeza. Ah, é claro, o leãozinho criança e depois adulto, cujo núcleo familiar representa a transição cultural: uma família erigida pela conquista do poder à força e que tem, no filho, um ser que vence pela cultura. Belas metáforas. Ou meta fora.
O que mais me faz pensar são os custos que representam gostar dessas histórias. Ir ao cinema, comprar MC Lanche Feliz para ganhar um dos oito ou dez bonecos do filme e depois pedir aos pais para voltar e comprar os que faltam, o álbum de figurinhas, camisetas, demais brinquedos, etc. A indústria cultural cobra um preço alto para nos apresentar bonecos meiguinhos em situações engraçadas. Calculo uma média de trinta e cinco dólares por criança ou cem reais em um mês de consumo natalino, apenas com personagens fofinhos.
As vezes os valores investidos pelos pais são tão altos que ganharíamos mais se o país fosse conquistado pelo exército ianque. Creio que os valores oferecidos aos norte-americanos seriam melhores. Melhor seria levar crianças a teatros infantis. Os pais gastam um pouco mais com ingressos, mas dificilmente a criança vai sair e encontrar um boneco de pelúcia do personagem retratado na peça. Preferia, na verdade, que essa indústria de pesque e pague de mesadas infantis fosse capitaneada pela indústria nacional. Preferia investir em algum empresário do entretenimento daqui do que do exterior.
As tribos urbanas são os melhores alvos para piadas. Sim, concorde comigo, mesmo que você seja um heavy metal, um emo, um sertanejo que usa calça apertada, um poodle ou qualquer outro ser que chame a atenção.
Dessas tribos, a que mais gosto são os que espalham piercings por lugares pouco higiênicos. Nunca me preocupei em pensar: puxa, como deve ser beijar com um piercing na língua ou como deve ser fazer sexo com um piercing no pênis.
O que me preocupa é o que o dito cujo vai fazer quando um fiapo de manga ficar preso no piercing da língua. Imagina ele puxando o fiapo e indo às lágrimas. Ou, então, aquele cara com uma argola no nariz e com um resfriado poderoso. Como ele vai assoar o nariz? Se conseguir, o lenço de papel vai grudar em volta da agorla, junto com a meleca.
O pior deve ser urinar com um piercing na ponta do pênis. Voa xixi por todo o banheiro, menos no vaso sanitário. Se ele sentar para fazer xixi, molha toda a bunda, devido ao jato giratório.
Já os heavy metals cabeludos, esses deveriam ser do movimento GLBT, o Gays, Lésbicas, Bissexuais e Transgêneros. Afinal, os metaleiros são cabeludos, portanto discutem marcas de shampoo e condicionador para alisar os cachos sedosos. Cobrem o guarda-roupas com pôsteres de bandas metaleiras repletas de homens másculos em poses musculosas. Adoram ouvir vozes agudas e não vivem sem usar um pretinho básico.
E os sertanejos? Sim, esses formam uma tribo. Sem dúvidas. Usam aqueles cortes de cabelo chitãozinho e xororó, calças que separam os dois ovos mexidos e a salsicha que eles divulgam ser maravilhosa. Deve ser, mas como aperitivo.
Outra tribo são os que andam com cães amarrados pela coleira. São das mais variadas idades, de crianças a idosos. Todos deixam marcas de xixi e cocô por onde andam e as vezes assustam os passantes, com os simpáticos latidos de seus cães. Depois de receber um latido raivoso de um pastor alemão, ouvimos aquela senhora, dizendo ao cão: lindinho, quieto.
Existem diversas outras tribos. A dos pedreiros é uma das mais antigas. Erguem prédios, casas, pontes e lançam as mais criativas cantadas que a humanidade conhece. Tem essa aqui: Nossa, você é tão linda que não caga, lança bombom. Ou, então: você não usa calcinha, você usa porta-jóia.
Os internautas que enviam piadas idiotas também são uma tribo. Não vou falar dos que mandam PPSs longos. Esses merecem morrer. Só isso. Gosto mais, como homem, dos que remetem fotos de mulheres nuas. Esses sempre enviam durante o horário de expediente. Quem recebe fica com os dedos coçando. Abro, não abro? Espero chegar em casa? Olha para os lados, verificando se há alguma colega na sala. Se tem outros homens aí é simples. Chama todos, faz uma parede de testosterona e todos se deliciam com as imagens daquelas deusas em poses que nenhuma mulher normal faria em seu cotidiano. Ao menos, é claro, que esteja apaixonada, carente ou precisando de dinheiro. Ou as três coisas.
Enfim, são inúmeras tribos. Tem a dos pais cujos filhos não comem salada, dos adultos que só comem hambúrguer, bife e batata, dos que escutam música ruim e acreditam que todos devem ouvir. E você, mesmo que negue, deve pertencer a uma tribo daquelas bem insuportáveis. Só precisa descobrir.