Ananias Nicanor - por Leandro Dóro
Ananias Nicanor, faça plástica sem nenhuma dor. Esse é meu lema. Fiz medicina por amor. Quando criança já dissecava alguns animais. Em toda data comemorativa, pedia: mãe, me dá um passarinho. Mãe, me dá um hamster. Em um mês o bichinho sumia. Eu sempre culpava Félix, meu gato, que, além de ser meu álibi, nunca foi dissecado por sempre fugir de mim.
Cresci e passei no vestibular para Medicina. Adorava ir ao necrotério ver aqueles bifinhos humanos e minha primeira namorada, durante o curso, foi meu primeiro alvo de plástica. Uma manhã ela dormia, quando apliquei-lhe uma anestesia local, peguei o o bisturi e, shuift, implantei uma mini-prótese de silicone sob um calo que ela tinha no pé direito. Foi divertido vê-la correr mancando atrás de mim, jogando os sapatos que naquele momento mal lhe cabiam no pé.
Especializei-me em plástica também por amor. Pelo dinheiro, é claro. Ah, e pelas mulheres. Afinal, dinheiro atrai mulher.
Para as minhas clientes, sempre afirmo que plástica é um investimento seguro. Você adquire e aquela prótese sempre vai estar lá, acompanhando-a pela vida afora.
Uma de minhas clientes foi furtada, esses dias. O assaltante disse:
- Passe tudo que tens de valor.
- Olha, rapaz, a prótese do queixo vale mil reais, os seios, três mil. Levantar as nádegas, quatro mil e quinhentos. Mas, se quiser, na carteira, tenho quinze reais.
Notaram a maravilha que é a cirurgia plástica? Ao invés de dar o dinheiro ao assaltante, ela deu a mim. E o que lhe dei em troca ninguém pode tirar. Só, é claro, se ela precisar de mais uma recauchutagem. Sim, recauchutagem. Igual a carro que precisa de revisões periódicas.
Afinal, carro e mulher se assemelham: traseira e dianteira impecáveis são essenciais.
Aprendi a fazer cirurgia plástica no bar da universidade. Para aprender implante de seios, pegava um pão de xis-salada sem ser cortado, bife, ketchup, mostarda, etc. Realizava uma pequena incisão no pão e implantava, com a faca, o bife, como se ele fosse uma prótese de silicone. Colocava ketchup no entorno para ficar mais realista. Depois, um pequeno corte no bife e colocava mostarda no meio da carne. Era um corte perfeito. Depois, enfeitava com salada e comia.
Com minha mulher, fiz o mesmo. Cortei, implantei, corrigi e depois comi.
Para aprender a fazer lipoaspiração pegava um prato de arroz com bife e um canudinho. Colocava o bife sobre o arroz. Realizava uma pequena incisão no bife e, com o canudo, sorvia o arroz até que este desaparecesse do prato. Decorava o bife com ketchup para ser mais realista. Depois, é óbvio, comia o bife.
Foi um extenso aprendizado. Por causa dele, engordei alguns quilos. Mas isso não reduziu meu charme com os mulheres. Vestir-se de branco e com camiseta do curso sempre atraia olhares. Aliás, aprendi a erguer pálpebras com ovos estralados. Pegava o bisturi. Executava uma nova incisão e erguia a clara do ovo, sem mexer na gema. Depois, colocava uma pequena batata frita no meio dessa mesma clara. Aí, era só fechar a incisão e comer.
Se eu não sobreviver como cirurgião, ao menos posso ser um bom cozinheiro.
Ainda aprendi muitas dicas de beleza. Uma delas é indicar leite de cabra para avivar a pele. Algumas clientes nordestinas perguntavam: leite de cabra macho ou de cabra fêmea? Se ela tiver a mesma facilidade de conseguir ambos, melhor. Senão, pode ser o de cabra fêmea.
Agora, com licença. Vou meter o bisturi.
Escrito por Doro às 19h22
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