Telejornal: umbigologia paulista
Por Leandro Malósi Dóro O Brasil, país de mais de 180 milhões de habitantes, acostumou-se a assistir telejornais que apenas refletem de forma predominante a realidade e perspectiva paulista. A reportagem é sobre economia? Cita-se Brasília, mas se pergunta a opinião da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). A reportagem é sobre feriado prolongado? As notícias sobre trânsito são sobre a Marginal Tietê. E as sobres movimento dos bares se concentram na Vila Madalena. Mercado de luxo? Sem dúvida, o Jardins. E o Rio de Janeiro? Esse é obrigatoriamente citado. Afinal, é onde surgiu a Rede Globo e a maior parte das emissoras de televisão. É citada como cidade violenta, repleta de pessoas interessadas em viver umas constantes férias. São mais saudáveis que os paulistas. E o resto do país? Servem para dar aspecto nacional do telejornal. E Brasília? É uma terra repleta de políticos paulistanos. Portanto, merece ser repercutida no telejornal local. Além disso, boa parte das verbas publicitárias provém da Capital Federal, seguindo a lógica neopatrimonialista, de um país que depende do governo federal para sobreviver. É onde as empresas paulistas tiram parte da sua verba para sobreviver e onde emitem seus impostos. Portanto, vale noticiário. E o nordeste? É uma região onde os paulistanos têm curiosidade, pois seus empregados são nordestinos e esses também dão audiência. E o Norte? Oras, Amazônia, aquela região maravilhosa que é tão diferente da excessivamente urbana paulicéia. E o Sul? É do Paraná para baixo. Vale pelas praias catarinenses, pelos profissionais paranaenses e por alguma curiosidade sobre o Rio Grande do Sul, aquele estado desconhecido. A interpretação mais simplista dos telejornais apresenta a visão de país do paulista: nós trabalhamos, os cariocas tiram férias, os políticos de Brasília só roubam e Nova Iorque é a única cidade superior a nós. Ah, sim, o resto do mundo. Esse é citado por ser obrigatório reportagens nesse sentido sobre países de primeiro mundo que são essenciais para a manutenção de muitos investimentos no Brasil. Em especial, São Paulo. E as reportagens sobre comportamento? Acontecem em alguma família paulistana ou destacam algum empresário que deixou a Paulista para se mudar a algum estado exótico. Leia-se exótico qualquer Estado diferente de São Paulo. E quando isso vai mudar? Difícil ou impossível. A menos que São Paulo resolva se descentralizar, os bandeirantes do telejornalismo continuarão praticando umbigologia.
Escrito por Doro às 15h27
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