Quadrinhos altamente recomendáveis
Por Leandro Malósi Dóro, jornalista, cartunista e contista Funcionários da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo escolheram erroneamente para crianças de nove anos a coletânea Dez na Área Um na Banheira e Ninguém no Gol, da editora Via Lettera. A obra em quadrinhos possui, em trechos, narrativas sobre futebol em presídios com citações ao Primeiro Comando da Capital (PCC) e paródias de mesas-redondas desportivas, salpicadas por palavrões. O Estado adquiriu 1700 e distribuiu 1216 desses livros, recolhidos das escolas uma semana depois. A aquisição da obra revela que essa falta de critério se deve a uma desatenção na escolha das leituras para crianças pelos responsáveis do Estado de São Paulo. O livro em quadrinhos era para adultos – categoria, aliás, que, os que não lêem quadrinhos, desconhecem. A desatenção dos servidores do Estado de São Paulo é condenável. Porém revela a necessidade dos quadrinhos para escolas ser recomendados por um selo que classifiquem as obras por faixa etária. Isso já acontece há anos no mercado infanto-juvenil, inclusive com selos de qualidade. Para criar o selo dos quadrinhos escolares é necessário compor uma comissão de educadores acadêmicos, pesquisadores de quadrinhos e cartunistas. Essa tríade, acredito, deve excluir representantes das editoras, já que esses últimos possuem interesses comerciais. O grupo, ainda, deve criar uma fundação para debater, analisar e servir como conselheira na área. Os livros escolhidos precisam ser anunciados em páginas virtuais sobre quadrinhos e enviados para editoras, que imprimirão o selo em cada obra. Essa atitude garantirá que os quadrinhos para escolas sejam mais apropriados e evitem a desatenção daqueles que recomendam leituras para crianças. Essa proposta é diferente do Comic Code instituído nos Estados Unidos nos anos 50. Era período macarthista, onde havia uma paranóia contra o comunismo. Na época, o livro Sedução dos Inocentes do psiquiatra Fredric Wertham denunciou gêneros de quadrinhos como não-indicados a crianças e adolescentes. O psiquiatra dizia que muitas histórias faziam alusão à violência, sexo e terror. A reação das editoras de quadrinhos foi criar a Associação das Revistas em Quadrinhos da América. O resultado: à elaboração de um selo posto na parte superior das revistas em quadrinhos para diferenciar as recomendáveis das demais. A criação do Comic Code gerou polêmica pelo seu excesso de zelo em relação ao conteúdo dos quadrinhos que muitas vezes se tornaram mais infantis do que o recomendável. Todavia, a proposta que faço, em relação ao selo brasileiro, é exclusivamente para obras vendidas para escolas, que auxiliem no aprimoramento da capacidade de leitura de crianças e adolescentes. As demais, vendidas em bancas ou livrarias ou feitas para adultos, devem ser liberadas do uso do selo. O polimento da proposta de elaboração desse selo pode ser feita com o apoio da Fundação Nacional do Livro Infanto-Juvenil (FNLIJ). Essa fundação emite o selo de Altamente Recomendável para livros infanto-juvenis. A FNLIJ foi criada nos anos 60 como um braço International Board on Books for Young People (IBBY). Os fundadores foram a Associação Brasileira do Livro, Sindicato Nacional dos Editores de Livros, Associação Brasileira de Educação, Câmara Brasileira do Livro, Sindicato das Indústrias Gráficas do Estado do Rio de Janeiro, União Brasileira de Escritores e Centro de Bibliotecnia. Creio que a experiência dessa fundação é essencial para que o selo dos quadrinhos seja elaborado. O selo para os quadrinhos infanto-juvenis nacionais também auxiliará na indicação de obras que não são apenas adaptações literárias – principal tipo de aquisição do Governo Federal, em especial. Irá liberar o desenhista e o roteirista para apresentar histórias originais, que possam ser utilizadas em sala de aula. A criação desse selo auxiliará para que os quadrinhos se consolidem, mais uma vez, como leitura para crianças e adolescentes em escolas brasileiras.
Escrito por Doro às 13h45
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