Insônia da palavra - por Leandro Malósi Dóro
A maioria dos cerca de 80 mil jornalistas graduados deve estar insone nessa madrugada de 18 de julho de 2009. Na véspera o Supremo Tribunal Federal aprovou por oito votos a um o fim da exigência do diploma de jornalista para exercer essa profissão. É o fim de cerca de 40 anos de exigência do diploma para atuar nas empresas de comunicação. A classe patronal comemora. A Associação Nacional de Jornais (ANJ) poderá reduzir os pisos salariais e escolher quem lhe aprouver para atuar na profissão. Provavelmente existirá crise em algumas assessorias de imprensa. Cursos de jornalismo serão fechados por falta de alunos. A Associação Brasileira de Imprensa (ABI) desde 1918 solicitava a existência de cursos de jornalismo como exigência para exercer essa profissão. A conquista tornou-se pó por oito a um. Os argumentos do relator, ministro Gilmar Mendes, basearam-se no fato da exigência do diploma ter ocorrido em plena ditadura militar. Afirmou que o exercício da democracia deve ocorrer por qualquer indivíduo, mesmo sem diploma. Comparou jornalistas a cozinheiros e toda a ladainha que será repetida a exaustão em inúmeros artigos que circularão nas próximas décadas como memória dessa decisão histórica. A óbvia posição pró-diploma da Federação Nacional dos Jornalistas (FNJ) nem precisa ser citada, mas sim a hipócrita afirmação dos representantes da ANJ de que a maioria dos profissionais de redação continuarão a ser graduados. Creio que posso comentar sobre essa decisão de uma postura diferente da apresentada pela maioria dos jornalistas graduados. Atuo na área desde 1993. Comecei na cidade de Passo Fundo (RS), onde o curso passou a existir somente a partir de 1996. A maioria dos profissionais a minha volta não possuíam graduação. Os poucos que possuíam formação tinham mais senso crítico e eram mais arredios a desvios éticos. Escreviam melhor que os graduados em direito, que pululavam as redações com seus textos que se assemelhavam ao formato jurídico ao invés do Lead. A graduação foi instaurada na cidade com apoio de educadores entusiastas, que acreditavam a importância da formação técnica para atuar na profissão. Apenas em 1998 tive dinheiro para me matricular na instituição. Estudei por um ano, tranquei e passei a pagar a dívida que contraí na universidade – cerca de um ano e meio de prestações que consumiam metade do piso de jornalista que eu recebia a época. Estudei, nesse ínterim, disciplinas do curso de Filosofia, para não perder o vínculo com o meio acadêmico. Fascinei-me pelo que passeia a aprender a partir do contato com os professores, a biblioteca e o curso de jornalismo. Cheguei na universidade com a crença de que já conhecia jornalismo. Dominava o conteúdo dos três principais manuais de redação jornalística do país, lia revistas e livros da área. Trabalhava as vezes vinte horas por dia nas redações. Porém o meio acadêmico me tomou de assalto. Lia cerca de oito livros por mês e me desafiava a estudar obras de jornalistas e empresários que antes desconhecia – Samuel Wainer, Assis Chateaubriand, Nelson Rodrigues – e fascinei-me por disciplinas como Redação Jornalística, Cultura Brasileira, Sociologia e, principalmente, Teoria da Comunicação, onde estudávamos a recepção das notícias de forma prática e apaixonada. Diversos dos meus colegas também atuavam em redações, seja de jornais ou emissoras de televisão, de porte regional. Todos compreendiam os ensinamentos dessa disciplina, pois tinha o retorno de seus efeitos nas ruas. Obtive, graças ao jornal que trabalhava, o registro de Jornalista Provisionado. Ganhei registro de jornalista na Carteira de Trabalho. Mesmo assim, a proprietária do jornal insistia que concluíssemos o curso de graduação. Dizia; “não quero contratar os bêbados sem graduação que se dizem jornalistas”. Apesar disso, não consegui dinheiro para terminar o curso. Em 2001, aos 25 anos, saí de Passo Fundo e mudei-me para Porto Alegre. Atuei como repórter no primeiro Fórum Social Mundial e conheci os jornalistas de esquerda que atuavam no período, na cidade. Fui cogitado a trabalhar na área. Porém o presidente do Sindicato dos Jornalistas, a época, disse-me que eu não podia cogitar a atuar com registro de provisionado. Apresentei meu currículo a uma revista do setor rural, que chamou-me dia seguinte para começar a trabalhar. Ao confirmar que eu não possuía diploma, tiveram que retroceder no convite. Para minha sorte, passei na seleção para jornalistas da Associação dos Servidores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Ganhava menos do que a jornalista graduada, mas estava na área. Nesse meio tempo, migrei, profissionalmente, para as artes gráficas. Tornei-me, na minha concepção, um jornalista-ilustrador. Criava infográficos, cartazes, capas de jornais e revistas e, para completar minha renda, editava uma revista infantil para uma rede de supermercados. Em 2002, tornei-me produtor gráfico em uma assessoria de imprensa de um sindicato vinculado ao judiciário, onde atuo até a atualidade. E recomeçou minha sanha por concluir o curso de jornalismo. Restringi meus gastos e adiei conquistas para pagar as mensalidades do curso. Conheci professores e jornalistas dos mais diversos gêneros: desde profissionais dedicados a desinteressados pela profissão. Porém, todos jornalistas. Conversei com inúmeros amigos que sonhavam ser jornalistas – a maioria, graduados em direito. Tergiversei sobre a possibilidade de voltar a atuar como jornalista profissional e ative-me a auxiliar meus colegas a obterem pautas e a aconselhar, alguns, na profissão. Lancei novela jornalística sobre uma revolta de motociclistas que houve em 79, na minha terra natal. Desenhei e escrevi contos a exaustão. Estudei, entre outros assuntos, Teoria da Ação Comunicativa. Transitei pelo curso de Artes da Ufrgs e, principalmente, dediquei-me a concluir jornalismo. Consegui, finalmente, entre o final de 2008 e início de 2009. A partir daí veio a expectativa de obter o diploma definitivo para solicitar a inscrição como jornalista profissional no Sindicato dos Jornalistas. Os ministros do STF tornaram essa expectativa inócua e infrutífera.
Escrito por Doro às 07h02
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